Conforme explicitado no documento assinado pelas duas legendas no sábado, a base programática do acordo tem dois pilares: a decisão de se “aprofundar a democracia” e construir bases para o “desenvolvimento sustentável”. E é justamente o segundo pilar do acordo que tende a se tornar o ponto mais sensível da negociação entre as duas legendas, nos próximos meses. Eduardo Campos vinha tentando, nos últimos meses, uma aproximação com o agrobusiness, com o qual a Rede mantém relação conflituosa. Agora, terá de conciliar o ambientalismo ao discurso para o setor produtivo.
- Nós estamos fazendo uma aliança e vamos ter tem um programa que vai defender o desenvolvimento sustentável. Como os ruralistas vão fazer, não sei. Mas os ruralistas que têm política contra o desenvolvimento sustentável não vão ter muito espaço. O centro do projeto da Rede é a sustentabilidade e o do PSB é o socialismo. Vamos fazer uma aliança ecológico-socialista - explicou Pedro Ivo.
No sábado, ao anunciar o acordo entre os dois partidos, Marina Silva assegurou que conhecia as diferenças entre as legendas, mas também o que as unia. Essa é a linha do discurso dos principais envolvidos. O secretário-geral do PSB garante que tem havido grande convergência nas questões centrais:
- Vamos decidir tudo de comum acordo. A convergência inicial tem sido tamanha que até eu me surpreendi. O (Ronaldo) Caiado é um problema local. Ele quer ser candidato em Goiás e lá nós temos um candidato, que é o Valderlan. Temos que discutir. Vou sentar amanhã com o Pedro Ivo para fazer um pente-fino estado por estado - diz Carlos Siqueira.
Líder do DEM na Câmara, Ronaldo Caiado, disse que, pessoalmente, decidiu apoiar Eduardo Campos em março, quando quase ninguém ainda havia se posicionado. Houve dois encontros, em Goiás e Pernambuco, com o governador. Conhecido como um dos principais símbolos do ruralismo, Caiado garante que não tem problema nenhum em conviver com Marina e seus aliados mais próximos:
- Só tenho restrições a aparecer ao lado de corruptos e traidores. Sempre tive posições muito claras. Quando se constrói uma candidatura a presidente da República, é preciso trazer todo mundo para seu campo e cabe ao estadista achar o meio termo para governar. Não conheço paz de cemitério quando se trata de alianças - justifica.
Caiado diz que a “demonização” dos produtores é passado, e que Campos saberá equilibrar-se entre as duas posições:
- As coisas evoluem. Não existe mais essa demonização. Hoje o que salva o Brasil é a agropecuária. Não tem que ganhar eleição fazendo uma guerra de secessão, uma Venezuela. O estadista tem que trabalhar o equilíbrio, não estimular o enfrentamento de classes. Eduardo Campos está tirando dessa eleição a discussão raivosa e maniqueísta. Ele terá sabedoria para ouvir e decidir, sem fomentar discórdias - avalia.
No entanto, há divergências de fundo entre os dois partidos especialmente nesse ponto. A posição do PSB na votação do Código Florestal, projeto mais importante da atual legislatura em relação ao meio-ambiente, foi amplamente contrária ao desejo da Rede. Há duas semanas, o partido de Marina havia aprovado uma resolução afirmando que os parlamentares que desejassem ingressar na legenda teria analisadas especificamente suas posições na votação do chamado “relatório Aldo Rebelo” do Código Florestal.
A ideia era barrar os favoráveis. Dos 30 deputados do PSB, apenas 27 votaram a favor da proposta. O líder do PSB na Câmara, Beto Albuquerque, no entanto, minimiza o problema:
- Não temos pensamento único. O importante é o que pensamos para o país. A Rede não veio para dentro do PSB fazer um pensamento 100% do que pensa e nem nós queremos que eles pensem as coisas 100% como pensamos. Vamos coexistir com nossas visões convergentes e às vezes divergentes. Ninguém entra ou recebe alguém para mudar a cabeça uns dos outros. Aceitamos a vinda sem exigir e ela (Marina) veio sem pedir nada. O momento é de convergência, temos que afinar nossas convergências - afirmou Albuquerque.
Pedro Ivo chancela a ideia:
- O Código Florestal era problema para entrar na Rede. Uma coligação não é a cara da Rede nem a cara do PSB, é um processo de construção de consenso. É preciso não confunddir. Os critérios para entrar na Rede não são os mesmos para entrar no PSB e no outro partuido - justifica.